3 ideias que vão te introduzir à filosofia de Albert Camus

Apesar de Albert Camus se considerar um escritor e não um filósofo, o argelino, que viveu entre 1913 e 1960, é conhecido por incluir reflexões filosóficas em seus trabalhos. “Se você quiser filosofar, escreva romances”, dizia. De família pobre, a vida do intelectual, que perdeu o pai na Primeira Guerra Mundial, foi marcada por ausências.

Sem livros, jornais, rádios, energia elétrica ou água corrente, Camus teve uma infância muito diferente daquela vivida pelos filósofos franceses de quem viria a ser amigo. O primeiro registro de seu primeiro diário, escrito aos 22 anos, traz a anotação: “Certo número de anos sem dinheiro basta para criar toda uma sensibilidade”.

E foi essa sensibilidade que guiou Camus em Argel, onde iniciou seus estudos em um liceu, para depois se tornar um reconhecido escritor e jornalista na França, com seus “três absurdos”: o romance O Estrangeiro, o ensaio O Mito de Sísifo, e a peça Calígula.

A influência de Kierkegaard
Apesar de ser familiarizado com a obra do filósofo alemão Martin Heidegger, a principal influência de Camus foi o dinamarquês Søren Kierkegaard, que usou a história bíblica de Abraão e Isaac para expôr seu conceito de “absurdo”.

Na passagem, Abraão aceita sacrificar o próprio filho como prova de amor a Deus sem questionar. Mas, antes que o sacrifício seja consumado, Deus libera o devoto da obrigação e manda os dois irem para casa.

O que espanta Kierkegaard não é a obediência cega de Abraão, mas o fato de pai e filho retomarem sua rotina normal depois de um acontecimento tão intenso. No ensaio Temor e Tremor, de 1843, Kierkegaard afirma: “Abraão renunciou infinitamente a tudo, e então retomou tudo de volta com a força do absurdo”. Ou seja, para viver uma vida cheia de falhas, é preciso dar um “salto impossível”.

Camus também acreditava nisso, mas sem a parte religiosa. “Aqui também podemos ver relações com a vida na França da Ocupação [alemã, durante a Segunda Guerra]. Concedeu-se tudo, perdeu-se tudo — no entanto, tudo ainda parece existir. O que sumiu foi o sentido. Como viver sem sentido? A resposta de Camus e Kierkegaard consistia em algo similar ao lema do cartaz britânico para elevar o moral: Keep Calm and Carry On[Mantenha a calma e siga em frente]”, escreveu a filósofa Sarah Bakewell, no livro No Café Existencialista.

O Mito de Sísifo
No ensaio O mito de Sísifo, que faz uma referência à Odisseia de Homero, o escritor fala do rei que, ao desafiar os deuses, recebe o castigo de empurrar uma pedra para o alto de uma montanha para sempre. Toda vez que ele chega ao topo, a pedra rola abaixo e ele precisa refazer o trabalho.

Em um artigo para a revista Filosofia, Ana Costa afirma: “Camus descreve Sísifo como uma pessoa que vivia a vida plenamente, odiava a morte e que foi condenado a cumprir uma tarefa totalmente inútil. O filósofo apresenta com o mito uma metáfora sobre a vida moderna em que diversas pessoas são obrigadas a realizar trabalhos fúteis em fábricas ou escritórios”.

O escritor questionava como devemos reagir diante da inutilidade da vida. Assim como Jean-Paul Sartre, ele afirmava que não paramos para pensar nisso simplesmente porque a vida é corrida demais.

“Mas de vez em quando ocorre um deslize e surge a questão da finalidade. Nesses momentos, sentimos um ‘cansaço tingido de espanto’ ao enfrentarmos a pergunta mais básica de todas: Por que continuamos a viver?”, escreveu Bakewell.

Para Camus, era preciso tomar uma decisão: se optarmos por continuar a viver devemos aceitar que não existe um sentido último no que fazemos.

Sartre, Beauvoir e Camus 
Apesar de não se considerar um adepto da filosofia existencialista, Camus tinha vários pontos em comum com seus amigos franceses Simone de Beauvoir e Sartre. Mas existem diferenças importantes entre suas obras.

“Por mais que gostassem de Camus pessoalmente, nem Sartre nem Beauvoir aceitavam sua concepção de absurdo. Para eles, a vida não é absurda, mesmo vista numa escala cósmica, e não se ganha nada dizendo que é. Para eles, a vida é plena de sentido, embora esse sentida surja de maneira diferente para cada um de nós”, escreveu Bakewell.

 

Via Revista Galileu

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Sobre o autor

Demasiado Humano

Demasiado Humano

"A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas."
Marcel Proust