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A essência é científica?

     No estádio, como um coliseu, estavam todos observando as muitas portas de salas no local. Em passividade, os que lá estavam não se importavam muito com a arena, apenas com as salas. Haja vista que um possível embate no estádio demandaria um esforço do qual eles não queriam se submeter, pois a vida que queriam encontrava-se acessível às portas próximas. Nas palavras de Sartre: “O homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define”. Há um bom lugar para filosofia de Sartre em nossos dias. Percebemos nele um apoio filosófico a esse ser humano no coliseu, instável e cambiante do séc. XXI. Estamos em um tempo em que acreditamos poder fazer aquilo que queremos e, para isso, podemos compreender pelas salas do estádio. Temos a sala da alimentação vegana, a do fitness, a do ballet, a de natação, a da yoga, a do pilates. A de quem frequenta clínicas de estética fazendo lipos, cirurgias, etc; todas para manter o corpo em forma e buscar ser feliz deste modo. Já no outro lado, temos a sala de programação neurolinguística. A da aula de violão, teclado e voz, tudo junto. A de teatro e música, para aliviar as tensões. Como não poderia faltar, a psicanálise e a ciência que são os norteadores, os avalistas que determinam aquilo que é válido ou não.  O cientista, que só se importa com os objetos, tramita em uma aparente confusão sem saber se ele é ou não um objeto de estudo; Ora, cadê o sujeito do objeto? Então, aparece a figura do psicanalista, este revestido com a couraça da ciência, e que se auto-intitula cientista, porém as bases da psicanálise nos levam a trilhar a compreensão do que somos pela ótica do determinismo. Ou seja, são as situações externas ao sujeito que determinam o que ele se tornou, levando-o a demasiadas justificações das suas ações para fora de um “eu ativo” que intersecciona-se com a ideia inicial de Sartre. O que me leva a uma ousada conclusão: as salas não são escolhas, mas tão somente uma escolha prévia da união entre ciência e psicanálise que objetificam a tudo e a todos, nos transformando em fantoches ou marionetes de um conhecimento que reclama a detenção da verdade. O que é verdade? O que é o homem? Existe alguma essencialidade que nos une enquanto indivíduos da mesma espécie? Mesmo com as várias tentativas de desmistificar o ser humano, a ciência e a psicanálise são invenções que talvez mais descrevem efeitos do que apontem para uma definição essencial de nós mesmos. Tornamo-nos seres humanos “pluriessenciais”.

     Estão num estádio, como um coliseu, todos a postos, mas não há ninguém na arena para se digladiar e não se perguntam mais o porquê. Há alguns anos o tempo que vivemos tem sido nebuloso ao ponto de nos cegar. Na maioria dos casos, se correm na praia e são vegetarianos, seguem uma tendência. Se “quebram a cabeça” querendo aprender mandarim para fazer um curso de relações internacionais, seguem uma tendência. Não que essas tendências sejam ruins em si mesmas, mas o motivo pelo qual as fazem é desprezível ou nulo. Isso demonstra uma perda de significado do que se é no mundo. O mundo está “perfeito e feliz”, pois os estudiosos da ciência e psicanálise delinearam o que devemos fazer e ser nas “devidas salas”. Essa sociedade que preconiza a felicidade e mais do que isso, tem sua sala, deve opor sua vontade atual, que é legítima, com o que os seres humanos são, pois quando souberem o que são, certamente os objetivos mudarão. Estamos em um estádio com diversas portas para salas.

 

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