Mesmo que não nos lembremos, nossa vida psíquica continua a todo vapor à noite. Abrem-se as portas do inconsciente e… sonhamos. Os sonhos são o que de mais genuíno criamos de um ponto de vista psicológico. São produtos nossos, por mais bizarros que nos pareçam. Os sonhos não sofrem a influência direta da nossa consciência e, assim, se nos dedicarmos a eles, são nosso melhor canal de autoconhecimento.

Não foi à toa que os maiores estudiosos da mente humana de todos os tempos, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, fizeram dos sonhos um instrumento de trabalho, uma porta de acesso à mente do paciente e, assim, dedicaram suas vidas ao estudo dos sonhos. Jung, sobretudo, aprofundou-se no conhecimento dos símbolos e tornou-se uma das maiores referências para a compreensão da complexidade do psiquismo humano.

Marie-Louise von Franz em O Homem e seus Símbolos no capítulo O processo de individuação diz:

“Observando um grande número de pessoas e estudando seus sonhos (calculava ter interpretado ao menos uns 80.000 sonhos), Jung descobriu não apenas que os sonhos dizem respeito, em grau variado, à vida de quem sonha, mas que também são parte de uma única e grande teia de fatores psicológicos. Descobriu também que, no conjunto, parecem obedecer a determinada configuração ou esquema. A este esquema Jung chamou de ‘o processo de individuação’. Desde que os sonhos produzem, a cada noite, diferentes cenas e imagens, as pessoas pouco observadoras não se darão conta de qualquer esquema. Mas se estudarmos os nossos próprios sonhos e sua sequência inteira durante alguns anos verificaremos que certos conteúdos emergem, desaparecem e depois retornam. Muitas pessoas sonham repetidamente com as mesmas figuras, paisagens ou situações; se examinarmos a série total destes sonhos observaremos que sofrem mudanças lentas, mas perceptíveis. E estas mudanças podem se acelerar se a atitude consciente do sonhador for influenciada pela interpretação apropriada dos seus sonhos e conteúdos simbólicos.”

Ou seja, os sonhos falam muito mais de nós do que imaginamos. Eles não mentem. Jung não criou um “manual de sonhos”. Não se trata de um oráculo. Os sonhos são individuais e um mesmo símbolo permite inúmeras interpretações, o que significa que cada símbolo tem sentidos diversos e únicos para cada sonhador. Desta maneira, os sonhos são um material de extrema importância em um processo psicoterápico, seja psicanalítico ou junguiano.

Por que, afinal, interpretar sonhos em uma terapia? Os sonhos falam por “símbolos”. Verena Kast explica o que os símbolos revelam sobre nós em A Dinâmica dos Símbolos:

“A palavra ‘símbolo’ origina-se do grego ‘symbolon’, um sinal de reconhecimento. Na Grécia antiga, quando dois amigos se separavam, quebravam uma moeda, um pequeno prato de argila ou um anel. Quando o amigo ou alguém de sua família voltava, tinha de apresentar sua metade. Caso ela combinasse com a outra metade remanescente, esse alguém teria revelado sua identidade de amigo e tinha, assim, direito à hospitalidade. A combinação de duas metades (‘symbálein’ = juntar, reunir) também é tema de vários romances; como sinal de reconhecimento vale, por exemplo, a metade de uma concha de madrepérola, que se junta suavemente à outra metade.

A etimologia do conceito mostra o símbolo como algo composto. Apenas quando combinado é um símbolo, tornando-se símbolo de alguma coisa: nesse exemplo ele está como representante da realidade espiritual da amizade e – apontando para além da amizade pessoal – da amizade de famílias, juntamente com o direito à hospitalidade. Nesse caso, o símbolo – e isso se aplica a todos eles – é um sinal visível de uma realidade invisível, ideal. Portanto, no símbolo observam-se dois níveis: em algo externo pode-se revelar algo interno, em algo visível, algo invisível, em algo corporal, o espiritual, no particular, o geral. Na interpretação, procuramos a realidade invisível por trás deste algo visível e sua conexão. Nesse processo, o símbolo caracteriza um excedente de significado, nunca poderemos esgotar inteiramente seus significados.”

Consequentemente, os sonhos são de importância ímpar para que possamos nos conhecer de verdade, eles nos revelam quem somos genuinamente e apontam qual o nosso inadiável caminho de crescimento. Podemos driblar a vida de mil maneiras, mascarar a realidade, nos reinventar a nosso bel prazer, distorcer fatos e acontecimentos a favor de nossos gostos pessoais, mas… sempre haverá um sonho a nos acordar para o necessário enfrentamento do nosso verdadeiro “eu”.

BIBLIOGRAFIA:

O processo de individuação, M. – L. von Franz em O Homem e seus Símbolos, Carl G. Jung, Editora Nova Fronteira, 1964

A Dinâmica dos Símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana – Verena Kast, Editora Vozes, 2013

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).