Aquilo que somos contribui muito mais à nossa felicidade que aquilo que temos

Muitas pessoas ricas são infelizes porque carecem de qualquer cultura mental, de qualquer conhecimento e, portanto, de qualquer interesse objetivo que poderia qualificá-las para atividades intelectuais.

Aquilo que a riqueza pode proporcionar, além da satisfação de certas necessidades reais e naturais, tem pouca influência sobre nossa felicidade propriamente dita; pelo contrário, esta é perturbada pelas muitas e inevitáveis preocupações envolvidas na preservação de grandes propriedades. Contudo, os indivíduos são mil vezes mais preocupados em se tornarem ricos que na aquisição de cultura, embora seja quase certo que aquilo que ‘somos’ contribui muito mais à nossa felicidade que aquilo que ‘temos’.

Então vemos muitos, industriosos como formigas, trabalhando incessantemente para ampliar a riqueza que já possuem. Além do estreito horizonte dos meios para esse fim, não sabem nada; suas mentes estão em branco e, consequentemente, impassíveis de quaisquer outras influências. Os prazeres mais elevados, aqueles do espírito, lhes são inacessíveis e em vão tentam substituí-los pelos fugidios prazeres dos sentidos, aos quais se entregam ocasionalmente com pouco gasto de tempo, mas muito de dinheiro. Com boa sorte, no fim de suas vidas terão como resultado uma enorme quantidade de dinheiro, que então deixam para seus herdeiros, seja para ampliá-la ainda mais ou esbanjá-la. Tal vida, embora exercida com grande seriedade e um ar de importância, é tão tola quanto tantas outras que têm um chapéu de burro como símbolo.

— Arthur Schopenhauer, in Aforismos Para a Sabedoria de Vida.

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