AS METÁFORAS NOS CONTOS INFANTIS

Metáforas estão presentes em grande parte de nossa literatura. Poetas, músicos e grandes literatos se apropriaram dessa figura de linguagem e alcançaram grande êxito. O Filosofo Grego Platão (27 a.C.-347 a.C) trazia em sua filosofia grandes metáforas afins de explicitar ideias e conceitos filosóficos. O Mito da caverna presente em sua obra A Republica  demonstra a importância de tal técnica para com a transmissão de sua ideia para indivíduos leigos, afim de introduzi-los em seu modo de pensar. Podemos facilmente encontrar as metáforas presentes nos grandes contos infantis, que atravessaram séculos desde sua criação e continuam a influenciar nossa forma de agir e pensar. O grande objetivo aqui , é mostrar que as metáforas nos contos infantis trazem consigo não apenas o lúdico, mas sim uma moral que pretende transmitir um modo de agir dentro da nossa realidade.

Toda literatura é produzida dentro de um espaço e de um tempo. Justamente por isso, os contos infantis trazem consigo mensagens e realidades já experimentadas por pessoas que já estiveram diante de uma situação x ou y. Porém, isso não significa que permanecem imutáveis, mas pelo contrário, sofrem constantemente adaptações conforme os fenômenos se manifestam, mudando assim o linear dos contos. Heidegger em sua obra Caminho para linguagem (2003) diz:

O homem fala. Falamos quando acordados e em sonho. Falamos continuamente. Falamos mesmo quando não deixamos soar nenhuma palavra. Falamos quando ouvimos e lemos. Falamos igualmente quando não ouvimos e não lemos e, ao invés, realizamos um trabalho ou ficamos à toa. Falamos sempre de um jeito ou de outro (HEIDEGGER, 2003, p.7)

Heidegger explicita o quão somos necessitados da linguagem, estamos a todo momento nos comunicando uns com os outros. O que ele diz pode nos ajudar a compreender melhor sobre o uso de metáforas nos contos infantis. Temos necessidade de nos comunicar, nem que para isso tenhamos que adaptar nossos códigos afim de transmitir conhecimento, pois o mesmo somente tem sentido se for compartilhado. Quando somos adultos, possuímos uma vastidão de informação linguística adquirida pelo materialismo histórico, mas uma criança ainda não está no mesmo patamar de nossa linguagem, já que estamos em vantagem em relação ao tempo e ao espaço, o que nos fez adquirir códigos mais elevados de comunicação, o que dificulta a interação entre adultos e crianças. Segundo Heidegger, a fala da linguagem se dá também por meio da poesia, que é a forma mais autêntica de manifestação da linguagem.  Transformamos então nossos códigos complexos em linguagem simbólica, afim de comunicar algo para outro indivíduo que não está no mesmo grau de linguagem que nós. As metáforas trazem junto de si a ideia de transgressão, pois se utilizam de uma ideia, imagem ou palavra afim de evocar outro significado. Quando falo por exemplo “Meu amor é uma rosa vermelha’’ estou querendo falar do amor explorando as características da rosa e trazer a tensão entre a cor da mesma.

“Assim como uma planta produz flores, assim a psique cria os seus símbolos.” (Jung, 1964, p.64). Jung diz que as imagens e os termos simbólicos representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Assim um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma – uma coisa dinâmica, viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.

Nos contos infantis as metáforas são extensivas, podemos passar horas buscando significados de diferentes ângulos, sem que houvesse um fim. Aqui está o grande motivo que os contos trazem a metáfora como linguagem acessível para a criança. A metáfora estimula a imaginação, o lúdico, que são predominantes na fase infantil. A imaginação por sua vez é capaz de perceber padrões que ainda não são acessíveis de modo primordial.

Na obra Hamlet (2003) de William Shakespeare, o personagem diz que “poderia estar preso numa caixa de noz e ser Rei do Espaço’’. Afinal de contas, o que é necessário para ser rei do espaço? Hamlet faz uma referência ao poder da imaginação, de explorar o universo a partir das imagens utilizadas e conhecidas, criando assim a metáfora.  Gilbert Chesterton (1874) também buscou compreender o papel da linguagem metáfora, de modo especial na infância. Sua utilidade é a despertar a consciência da criança para a vida e não simplesmente para o conto. Podemos analisar que geralmente a literatura utiliza-se de elementos da nossa vida, assim como a poesia, música e arte. Por isso trazem consigo reflexões da própria existência.

A metáfora faz rio correr no leito do rio, apenas para lembrar por um breve momento, que é água que corre nos rios. Isso porque nós perdemos a sensibilidade para perceber essa água. Por isso utilizamos imagens simbólicas: afim de recuperar a nossa sensibilidade.

Referências

HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2003.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Editado por Ann Thompson e Neil Taylor. Londres: Arden Shakespeare, 2006.
JUNG, Carl C. Concepção e organização. O Homem e seus Símbolos. Tradução Maria Lúcia Pinho. RJ:Editora Nova Fronteira, 1964.
PLATÃO. A República. Rio de Janeiro: Editora Best Seller, 2002. Tradução de. Enrico Corvisieri.

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Sobre o autor

Matheus John

Matheus John

Matheus John, 21 anos, natural de Ponta Grossa- Paraná. Atualmente cursando Ensino Superior em Licenciatura Filosofia pelo Instituto de Ensino Superior Sant'Ana. Colaborador do projeto de extensão na área de Literatura Existencialista e Filosofia Classica . Colaborador Projeto de Extensão UEPG: Nietzsche e David Foster: Niilismo e nova sinceridade