Bolsonaro, ódio e rancor

Ele vive em uma plataforma de tiro de artilharia, condena a homossexualidade e o debate sobre gênero nas escolas, acha que mulher deve ganhar menos que o homem e quer condecorar todo e qualquer policial que matar mais de 10, 20 ou 30 durante as operações policiais.

Agora me diz: Por qual razão Bolsonaro é considerado um mito e ocupa um lugar considerável nas pesquisas para presidente?

Há quem diga que o cara é ignorante, burro e não entende nada do que fala. Eu discordo: ele é inteligente, sabido e usa qualquer informação contra ele como porto seguro para o povo brasileiro. Ele é o último guardião, o salvador da pátria, o homem que vai salvar o mundo.

Não, é claro que ele não é. Aliás, quem é que é?

Porém, Bolsonaro também utiliza a descrença do eleitor como justificativa não-verbal pros contrassensos que emana a todo momento. O povo quer ouvir isso mesmo, que os bandidos serão banidos do mundo, que nenhum direito trabalhista será suprimido, que os assuntos polêmicos não serão debatidos e que a paz vai reinar absoluta na nossa terra de ninguém.

Acontece que quando policiais entram nas favelas atirando pra todo lado, e muitas guarnições fazem isso sim, muitos inocentes morrem pelas costas, sem nem chance de mostrar a cara. E quando um helicóptero sobrevoa uma favela densamente povoada tacando bala e disparando fogo, também morre muita gente inocente. Gente, não se faz isso em lugar algum do mundo.

Quando Bolsonaro diz que nenhum direito trabalhista será suprimido, e ele diz isso o tempo todo, ele está prometendo algo que nem sequer sabe o que é. Em momento algum, e você pode observar isso claramente, o cara cita qual direito trabalhista não será suprimido e não é pra poupar o seu tempo, mas porque ele não sabe quais são eles.

O Kit Gay, citado por Bolsonaro diversas vezes, só é chamado assim porque a bancada evangélica nomeou o projeto por conta própria. Na verdade, esse material é feito com vídeos e um guia importante de orientação aos professores. Esse projeto tinha como objetivo debater a diversidade sexual e prevenir as crianças de um preconceito já instalado no ambiente em que vivem.

O nome dessa ação é “Escola sem Homofobia”, que é completamente diferente de “Kit Gay”. Elaborado pelo MEC, em convênio firmado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o projeto não vingou, diferentemente do que afirma o candidato. O que é uma pena, saiba disso.

Além de tudo isso, e mais um monte de outras coisas que poderiam caber no assunto, o chamado “novo” para o Brasil tem 27 anos como parlamentar e apenas dois projetos aprovados. Além dele, seus filhos também exercem cargos políticos.

Gosto da democracia, muito embora ache que ela não seja exercida de fato por aqui. Porém, com todo respeito aos seus eleitores, há uma necessidade urgente de compreender a realidade das coisas. O país está doente, absurdamente doente, e não há médicos preparados pra isso.

Diante disso, e pensando de forma otimista, precisamos de uma pessoa interessada em trabalhar baseada nessa realidade, desprendida de preconceitos, prevenções irreais, prejulgamentos, intolerâncias, ranços, cismas, desconfianças, hostilidades e rejeições. Bolsonaro pode não ser um monstro, mas certamente não é essa pessoa.

Preocupa muito que, que apesar das respostas evasivas na maioria dos pontos, ele venha conseguido se manter um mito para grande parte dos brasileiros.  Só há um talento em Bolsonaro como homem público – e isso precisa ser considerado: ele é capaz de transformar sua ignorância abissal em algo a seu favor. Algo que pouquíssimas pessoas devem conseguir no mundo.

Não comparo Bolsonaro ao Trump, pois o segundo tem experiência empresarial e, de certa forma, uma estrutura partidária.  O que há de igual nos dois? A radicalidade perigosa e temerosa para uma nação já tão maltratada, a falta de compaixão e uma quase psicose que aparece nos momentos mais tensos de suas batalhas.

Porém, as consequências de um “presidente Bolsonaro” seriam muito mais do que catastróficas. Estamos vivendo uma situação onde todos nós precisamos fazer algumas escolhas entre o ruim e o pior, infelizmente. Entre um presidente mentiroso e um que distorce a história, que não tem coragem nem de assumir as barbaridades que já disse, fico com o mentiroso.

Se Bolsonaro for eleito, caso isso aconteça, saímos da UTI para a morte súbita. E deixaremos para a história muito mais do que o exercício falso da democracia, mas a certeza de que somos mesmo uma sociedade doente, atormentada e completamente falida.

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