A alimentação é uma das necessidades primárias do ser humano. Naturalmente, comemos para viver. Contudo, em um mundo em que nosso paladar é constantemente atiçado pela crescente criatividade gastronômica, parece que deslocamos o pêndulo para o pólo oposto, de forma que hoje vivemos para comer.

A comida é nossa grande aliada. Além das refeições tradicionais e de, literalmente, matarmos a fome, comemos quando estamos felizes, quando estamos tristes, quando estamos sós, quando estamos acompanhados, quando não estamos fazendo nada, quando estamos estressados com as atribulações do dia-a-dia, e por aí afora. Ao ligar a televisão, ao acessar a Internet, ao ir passear em um shopping center, ao ir ao cinema etc., lá estão várias e tentadoras opções de alimentos a nos estimular, gerando uma necessidade muitas vezes desnecessária. Assim como bebemos socialmente, também comemos socialmente.

O problema maior é quando o ato de comer se torna uma compulsão. Tanto pior quando nossas escolhas alimentares são as menos saudáveis possíveis, o que não é muito difícil acontecer. É mais fácil querer um chocolate que uma maçã, por exemplo. Um agravante é o ganho de peso naquelas pessoas que têm propensão à obesidade, o que se soma, normalmente, a um estilo de vida sedentário.

À parte as óbvias e relevantes questões médicas presentes na compulsão, acrescente-se o aspecto psicológico, pois alimentamos não só nosso organismo, mas também alimentamos nossas emoções.

Comer nunca é um ato puramente orgânico. Quando o bebê é amamentado, juntamente com o leite que sacia a fome, vem o afeto que sacia a angústia de que o bebê é acometido por não saber quando vai comer, se vai comer ou de onde virá este alimento. A presença da mãe ou do cuidador, o toque, o seu cheiro, os afagos, junto com o leite, vão aos poucos associando o alimento ao amor, de forma que, ao desejar o leite, o bebê passa também a desejar o aconchego do amor, e vai, assim, desenvolvendo este sentimento tão poderoso, quanto primitivo.

Comer, então, é um ato recheado de significações emocionais. Por isso é que as dietas, por si só, não emagrecem. Ou, se emagrecem, normalmente não o fazem definitivamente. Emagrecer é um ato físico, que altera a forma do corpo, porém não necessariamente altera a imagem corporal que fazemos de nós mesmos. Que imagem é essa? Que significados ela tem? Que outras emoções e ideias vêm associadas ao ato de comer para cada pessoa? Como para destruir, para agradar, para agredir, para me acalmar? Que espécie de carapaça esse envoltório de gordura me possibilita, que não consigo me livrar dele? Ela me protege, ela me agiganta, ela me infantiliza, ela me encobre? A que emoções dou vazão através do ato de comer?

Enfim, são inúmeros os significados simbólicos por detrás dos transtornos alimentares. Estas são questões que nenhuma dieta ou médico resolverão isoladamente. Daí ser extremamente importante buscarmos um tratamento psicológico paralelamente ao médico, ao nutricional e à atividade física, para que possamos emagrecer com saúde física e mental e, mais que isso, para compreendermos a nossa compulsão e, assim, mudarmos nossa relação com a comida. Desta forma, poderemos alcançar um equilíbrio saudável entre o comer para viver e o viver para comer.

BIBLIOGRAFIA:

Psicossomática hoje – Julio de Mello Filho e colaboradores – capítulo Obesidade: um desafio – Editora Artes Médicas, 1992.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).