Custo! O que custo?

I
Custo! O que custo?
Eles e elas, todos se vão
como tudo que pertence ao tempo
o choro se cala, a lágrima vara o rosto
o velho se torna vintage, o novo se torna moda
a tristeza é um jardim de vasos quebrados
a felicidade é flora rara
que se marca nos espinhos,
aqueles que, amedrontam somente
a alma
ou tudo aquilo
que ainda,
resta
II
Custo! O que custo?
A fumaça do cigarro, o blues e o jazz tocado
os trocados, que compõe
para última garrafa
que inteira, a amizade
III
Custo! O que custo?
Meus pobres pais se foram, mesmo que ainda vivos
sentados um frente ao outro
ressentidos, infelizes, incapazes, insatisfeitos,
sofridos e calados
há anos e para sempre, com a cuia de chimarrão na mão
IV
Custo! O que custo?
Se sinto saudades, não lembro
se um dia amei, sofri o dobro
se alguma vez, já fui, tudo aquilo que me pensaram ser
talvez
eu tenha mesmo sido
mas se não fui, a falsa testemunha, tem o meu perdão
pois posso ter parecido ser muitas coisas
que nunca, nem a mim mesmo, poderei explicar
V
Custo! O que custo?
Da janela de cada dia, posso ver cada vez menos
posso sentir o vento, mas não flerto com a brisa
O que gostei, gostava
hoje não quero ver na minha frente
e não entendo a insistência em perguntar:
minha profissão, se troquei carro, como está minha ex,
se já me formei, se comprei minha casa, se estou indo a academia,
ou se penso em enriquecer e prosperar como aquele primo distante…
Nunca antes respondi a todos, nem a todas as perguntas, mas como poeta
como ser humano, como alguém que zela pelo bom senso, e principalmente,
como ninguém que sou, os respondo:
Vão a merda!
VI
Custo! O que custo?
Nunca fui, nunca serei, pouco importa ser
bem resolvido
As vezes choro sozinho
por empatia ou pela tristeza aguda, que me dói até o vício
as vezes me engasgo com a própria risada, enquanto danço
nu e bêbado, com a alma do meu quarto
Há dias e dias e o óbvio dessas palavras é exatamente o que precede
a beleza e a crueldade
do acaso
VII
Custo! O que custo?
O que vale, ó vida minha?
Nada mais do que vale qualquer momento de consciência
as paixões torpes, as doses de uísque, entre os canecos de cerveja
aquela puta que até hoje lembro o nome, o cheiro, o gosto do beijo
o abraço de um amigo, que aos prantos chorava a morte de sua mãe
Eu custo a causa!
Custo o pesar,  sorrir, chorar, embriagar, sofrer, amar, odiar,
custo o que fiz,  faço, desejo
custo a escolha, pois ela é o erro e também o acerto, mas acima do resultado, é minha e só
custo quando fizer, e o que fizer, pois se fiz,
fiz porque me valia
mas se eu olhei, e se eu olhar,
para trás
é porque ainda,
não fui

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Sobre o autor

Vinícius Prestes

Vinícius Prestes

Escritor e boêmio, 18 anos, apreciador de música, da clássica ao samba, assíduo leitor de escritores beatniks, aficionado por filmes de máfia, no momento escrevo pra não morrer...