DESAPEGANDO-SE

Aprendemos, desde cedo, a nos vincular. Estabelecemos vínculos com pessoas e objetos, investindo neles boa parte das nossas energias. Seres sociais que somos, existimos coletivamente. A solidão absoluta significaria nossa extinção.

Vincular-se saudavelmente, porém, não implica se mesclar com o objeto de amor, a ponto de perder sua identidade (usarei a palavra “objeto” de amor para me referir, de modo geral, tanto a pessoas quanto a objetos materiais). E é aí que tudo se complica, pois às vezes gostamos tão intensamente que queremos incorporar o objeto amado à nossa vida, como se ele fosse parte inseparável de nós.

Por exemplo, há pessoas que nutrem verdadeiras paixões por carros, celulares, roupas, casas, por animais, e todos nós, certamente por seres humanos. Tudo isso é muito aceitável, guardadas as devidas proporções.

Quando nos vinculamos saudavelmente, admiramos nosso objeto de amor por identificar nele qualidades que às vezes não possuímos, porém conseguimos, ao mesmo tempo, perceber nossas próprias qualidades e ficamos felizes em poder compartilhá-las. Sabemos, contudo, o espaço que cada um ocupa, respeitando este espaço. Não esperamos só receber, por sabermos também doar. Há um equilíbrio espontâneo nas ações dos indivíduos e complementaridade.

Utopia? Talvez, mas este patamar saudável é alcançável. Torna-se alcançável quando sabemos nos amar e respeitar. A nossa felicidade não está em algo ou em alguém, mas na possibilidade de estabelecer trocas frutíferas com algo ou alguém, em que todos ganham ao mesmo tempo. Todavia, se desconhecemos o que temos de bom, é possível que supervalorizemos nossos afetos, tornando-nos dependentes deles ou tornando-os escravos nossos.

Não há nada mais prazeroso que se conhecer e se amar. Não faço aqui apologia do individualismo ou da vaidade. Quero, sim, enfatizar o respeito que devemos a nós mesmos e aos outros. Respeitando-me, saberei com mais propriedade respeitar os demais.

Infelizmente, muitos relacionamentos se estabelecem com base em trocas de interesses e não em amor genuíno. Tais relacionamentos geram muitos conflitos porque sub-repticiamente as pessoas se acham em eterna desvantagem, buscando revanches inconscientemente. O amor-próprio de cada um, exacerbado com a capa do orgulho, ofusca uma visão mais precisa da realidade.

Precisamos aprender o desapego. Desapegar-se talvez seja uma das mais sublimes formas de demonstrar amor. Nada e ninguém pertence a ninguém. Nada e ninguém existe para sempre. Precisamos aprender a caminhar ao lado, dando a liberdade a cada um de acelerar ou desacelerar seu passo, de ficar ou ir, de acordo com seus interesses e necessidades. Se soubermos nos amar com todo respeito, saberemos também apreciar o outro pelo que ele é, e não por aquilo que esperamos que seja. Saberemos também o momento da partida, sem remorsos. Enfim, saberemos nos vincular saudavelmente.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).