Vivemos a era do “ser feliz”. Buscamos uma felicidade quimérica, daí inatingível. Engolfamo-nos na inadiável tarefa do “prazer a todo custo”, sempre em busca, sempre insatisfeitos. Conseguimos pequenas “felicidades” momentâneas, mas logo elas se esgotam, pelo seu mesmo caráter de temporariedade, e lá vamos nós em nossa jornada incansável a perseguir nossa próxima “felicidade”.

Nesta verdadeira cruzada que empreendemos, metaforicamente “matamos pela nossa religião”. Mais ou menos assim: quero ser feliz, vejo você como uma porta de acesso à felicidade, mas você deixa a desejar, pois é falho, você está descartado, vamos ver o que mais de interessante há ao redor, pois a curiosidade que me despertou já acabou, preciso de mais adrenalina. Ou, então: estou a dez minutos sem ser feliz, não, não posso começar a entrar em contato com meu verdadeiro eu, suas angústias, suas incertezas e inseguranças, não posso ser frágil, vamos lá, tomar alguma bebida, fumar algum cigarro, usar o Facebook, usar alguma droga, sair para algum lugar, esquecer que eu existo, afastando-me de mim mesmo, de quem tenho terror.

Então, eu diria, hoje, aqueles que conseguem deixar a tristeza fluir, que permitem que ela aflore para olharem para ela e elaborá-la, que respeitam seu tempo de escoamento, estes são mais felizes que os “falsos felizes”. Estes sabem que não podem se enganar, que há conteúdos internos cujo contato e elaboração podem ampliar a consciência e impelir ao amadurecimento psíquico.

Se você de vez em quando se entristece, não há, a priori, nada de errado com você. Enveredar pelo caminho da busca do prazer sem trégua, colocando em prática a conduta do descartável, do temporário, do “quero mais prazer”, isto, sim, é patologizante. Não é à toa que muitos resvalam para a dependência química, seja alcoólica ou de drogas, ou outras dependências. Qualquer pausa nessa busca frenética pode dar vazão a toda a depressão sempre evitada e contida. Aí, sim, estamos diante de um quadro muito grave.

Portanto, é proibido sentir tristeza? Claro que não. Esteja alerta. Se você não consegue ser tão feliz quanto o que as pessoas pregam que são, quanto a suposta felicidade escancarada nas páginas do Facebook, se não consegue engatar uma experiência prazerosa atrás da outra, não se deprecie. Tudo bem sentir tristeza de vez em quando. A tristeza saudável é esta que chega, provoca reflexões e mudanças, que, como um filtro de limpeza, nos purifica e fortalece para os próximos desafios.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).