Estamos com medo e desanimados, mas isso não é tudo

Professor Jelson Oliveira

Estou angustiado e com medo. Muitos de nós estamos. Ao redor as notícias não são boas. Nós professores, estamos desprestigiados e ameaçados. Promovem a vigilância e acusam de doutrinadores precisamente aqueles que, como nós, têm a missão de inspirar o senso crítico e abrir mentes e corações para o conhecimento. Reinculcou-se, a marteladas de whatsApp, nas mentes dos mais ingênuos, a velha ideia de que há um abismo intransponível entre os intelectuais (ameaçadores e perigosos) e as pessoas comuns (gente do bem, que vive no mundo real). Gera-se na lógica do “negacionismo intelectual”, que inclui o filosófico e o científico e cuja raiz cotidiana é a recusa do papel do intelectual e do professor: as pessoas comuns, que nunca abriram um livro na vida, fazem faculdade por memes e passam a vomitar as suas opiniões agressivas, amparados na certeza que vem da crendice e do sentimento e não da evidência racional. Somos o produto da pós-verdade. O resultado é fanatismo e paranoia.

O clima se alastra. A sala de aula é um reflexo da decepção que se alastra aos quatro cantos. Meus alunos estão desanimados porque a educação vai mal e as perspectivas são as piores possíveis, incluindo privatização da Universidade, ensino a distância, desvalorização geral da carreira docente. Quem luta pelo meio ambiente está desanimado porque as estimativas do desmatamento da Amazônia e a exploração dos nossos recursos naturais nunca foram tão ruins. Assistimos, aturdidos, muitas de nossas causas, pelas quais lutamos ao longo de nossas vidas, sucumbir sob a botina dos ruralistas. Quem lutou pelos indígenas está esmorecido diante das propostas que cancelam demarcações e direitos conquistados a duras penas desde a Constituição de 1988. Quem lutou pela paz está infeliz com a pregação do ódio e não dorme à noite preocupado com a liberação irresponsável do porte de armas para um povo que não sabe manejar um título de eleitor. Quem acredita nos direitos humanos está recriminado e cabisbaixo, com medo da violência propagada pelos “garotos” que querem fechar o STF, com cowboys e milicos. Quem acreditou na verdade, desfalece em meio aos pacotes de memes e fake news que deságuam pelas redes sociais em enxurradas de ignorância e insensatez. Minhas amigas mulheres estão lendo, estupefatas, os recados do machismo e da misoginia que enchem as portas de banheiro das universidades em resposta aos incentivos propagados pelo pessoal que está chegando a Brasilia com pompa de ditadores, machos sentinelas da moral e dos costumes corroídos pelas traças da hipocrisia. Meus amigos gays estão sabendo dos perigos e tentam armar estratégias de sobrevivência em meio aos fedores da homofobia, apoiada nas mentiras do tal “kit” que nunca existiu e nas imbecilidades da cura gay que, certamente, será pauta central do absurdo Ministério da Família. Meus amigos negros, calejados pelo preconceito, temem o pior.

Ninguém com quem divido causas e ideais está feliz. Tem gente com insônia, crise de ansiedade, sentimento de derrota. Tenho ouvido os jovens, ah… os jovens!, desanimados e sem expectativas, carregando nos olhos o desespero de quem se sabe uma geração perdida. Enquanto outros, alienados, postam suas imbecilidades agora amparados no sentimento mais nefasto de todos, aquele que nasce da cegueira orgulhosa de quem caminha feliz para o próprio abate.

Nós, professores, em sala de aula, apesar de tudo, precisamos oferecer amparo. Evitar o catastrofismo. Não há outro caminho a não ser fazer da escola uma comunidade da esperança. A gente precisa continuar acendendo fósforos. Seremos poucos diante da maioria. Mas ali mesmo, no meio da noite, começaremos a entender o tamanho da escuridão, para quiçá, depois, em silêncio, manejarmos a luz com a destreza de quem aprendeu desde cedo que a dignidade do herói também se revela na derrota, que é o terreno mais fértil da resistência. De nós, professores, espera-se agora, mais do que nunca, a luz. Lembrem sempre de Nietzsche: em época de epidemia é que os médicos são mais necessários.

 

Fonte: Blog com J 

Autoria: Professor Jelson Oliveira

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