Já tomou sua dose de empatia diária? Já pensou no sofrimento alheio, calado? Vidas sofridas, vidas perdidas, vidas marginais… Vidas?
Convido-o(a) para uma tragédia que se sucedeu em minha confusa mente, não significa que esta história não seja real. Tantos são os casos, não imaginários, de dor, afinal.


OS ÓRFÃOS

A chuva caía, gélida, sobre nossos corpos andarilhos desta maldita vida. Pobreza. Tristeza. Sujeira. Sorrisos escondidos, faces escondendo sofrimento. Mortes narram nossa vida, perdas inacabáveis de gente, de dente. Não cessava a danada, molhados estávamos. A calçada alvinegra perdia o tom claro, já que esse misturava-se ao castanho da poeira lavada, da poeira que virara lama.

A Maria disse que tudo vai melhorar, coitada. Não acredito na bondade, caridade só por dó. Nascemos para sofrer.

Quinzé, o mais pequeno de nós três, não parava de chorar. Tapei-lhe a boca com um safanão. Perdeu mais um. Perdido o canino, como nossos progenitores, doença insistiu em levá-los – morreram de pobreza.

Eram boas pessoas; gostavam de Raul, de Renato Russo, Cazuza, mas também gostavam de gente viva, gente com talento e viva – só não lembro de quem. Mamãe engravidou cedo, papai não a abandonou, acompanhou-a na riqueza, na pobreza e, até mesmo, na violência. Como cães, expulsos de suas tradicionais famílias – o tradicional significa abandono? Me pergunto. – Os vizinhos falariam muito, melhor dizer que viajaram para nunca mais voltar, melhor não manchar a boa imagem de pureza. Antes viajante perdida(o) que “meretriz” e “pai de moléstia”. Amaram-se. Ao menos, até meu nascer.

A vida com filhotes é distinta, enche a paciência. Não pararam com as válvulas de escape, nicotina protagonizava o pseudo-café-da-manhã; a fumaça bailava, distraía, com seus aprazíveis movimentos, a fome que não passava com o pão batido ganhado da padaria que mendigávamos pelas madrugadas adentro. O álcool era o melhor amigo de meu pai, o amigo nas noites e nos dias ensolarados, mas também nos nublados. Minha mãe gostava da cocaína quando jovial, mas não tinha mais pa(i)trocínio para tal, ficou com o primo pobre dela, o crack. Desde jovens gostamos do cheiro adocicado do tal cabrobró, dizem que não é legal – eu não acho.

Foram-se. Abandonaram-nos Deixaram-nos jovens. Deixaram-nos; jovens, viciados, pedintes.

A revolta tomou conta do meu espírito; a promiscuidade, da minha irmã, o medo, do caçula.

As pessoas costumam ignorar; xingar; apontar, raramente, ajudar. Quando ajudam, nos exibem como seus troféus de autoestima orgulhosa. Desse modo, melhor não ajudar, não magoar, não humilhar, nós também sentimos, também ansiamos, só não concretizamos.

Temo que meu ódio faça alguma vítima, oportunidades não estão existindo. Mas isso ainda há de melhorar, a Maria disse que a chuva vai passar.

 


De que maneira pode-se concluir pensamentos acertados de tal reflexão? Questões sociais envolvem temas escancarados. A exclusão, a marginalização do ser humano por suas escolhas, por suas ações pouco acertadas em determinado momento. Momentos que definem destinos.

Esteriótipos traçados em uma sociedade doente pelo ódio ao amor; a importância de uma imagem construída, nem de perto, reflexo do real. Uma vida de ostentação, não de realidade.

Tristeza, inconformação, desejo de inexistência. Drogas para abstrair, fugir de uma vida miserável.

O abandono dos pais, do amor, do carinho, da compaixão. A indiferença com que a sociedade trata suas minorias (quando não, hostilidade). O desejo de mudança; a vontade de escapar desse mar de tragédia, que afoga e mata a humanidade do ser humano.

Mesmo assim, a esperança é a última que morre, talvez morra depois que nossos órfãos.


Não leia apenas por ler, permita-se mudar, permita-se ajudar.

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Como disse, a empatia nos convida a praticá-la todos os dias.

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Vá em frente!

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Sobre o autor

Leandro Medeiros

Jovem catarinense fascinado pela biologia, filosofia e escrita. Estudante de medicina, na Universidade Federal de Santa Catarina; além de conceber e solucionar indagações ao decorrer da vida.