No livro autobiográfico “Memórias, Sonhos e Reflexões”, Jung faz um apelo à Psicologia do futuro: a ela caberia a hercúlea tarefa de “defender” o inconsciente das gerações futuras. Nunca Jung foi tão visionário. Sabia exatamente do que falava. Embora tenha construído uma obra extensa e impactante calçada no conceito de inconsciente e tenha iniciado sua autobiografia assim “minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”, hoje se ouve o eco longínquo do apelo do mestre. Mas por quê? Estava ele enganado? Estava Freud igualmente equivocado?

Os anos se passaram largamente desde que Freud e Jung fizeram emergir ideias tão estranhas à época, ideias que foram fortemente combatidas e criticadas, diga-se de passagem, deixando para sempre este lastro de dúvida e deflagrando olhares de soslaio e desdém. O inconsciente é este filho histórico rejeitado, nunca muito bem acolhido no meio científico.

Hoje, mais do que nunca, buscam-se explicações de cada um de nossos atos e tropeços no cérebro. Afinal, precisamos de um bode expiatório. É óbvio que, tendo uma mente inserida em um corpo, e, portanto, uma mente que também é um corpo e um corpo que também é uma mente, a comunicação entre estas duas esferas é íntima; mente e corpo são indissociáveis. Consequentemente, conforme avança a ciência, muitas explicações serão de fato encontradas na neurociência. Mas, alto lá! Daí a quantificar e nomear todas nossas reações há uma grande diferença. Sempre haverá um lado nosso oculto, indecifrável, o das memórias perdidas, o do baú das vivências emocionais aparentemente esquecidas e enterradas, que, quanto mais desconhecido e rechaçado, mais exerce sua força e poder sobre nós. É aí que entra o inconsciente.

É claro que o inconsciente está démodé. Em um mundo cartesiano que respira explicações científicas e as exala por todos os poros, desconhecer algo, ainda mais quando este algo nos domina, é aterrorizante! Nosso maior inimigo somos nós mesmos, é aquilo que recusamos, rejeitamos e desconhecemos em nós, são nossos aspectos inconscientes. A ciência pode e deve avançar e esclarecer, mas temos visto ao longo dos séculos que estamos longe de ser oniscientes. O que explicaria as tais coincidências da vida? O que explicaria certas doenças mentais para as quais encontram-se medicamentos que amenizam a dor, mas não oferecem a cura? E as dores da alma, a ciência já conseguiu curar? Enfim, a vida foge às nossas mãos o tempo todo, entra e sai século. O que a ciência está longe de decifrar, rapidamente nomeia de “acaso”.

O brilhante psiquiatra suíço Carl Gustav Jung foi além do que se poderia imaginar ao estudar profundamente a mente humana. Mergulhou em si mesmo e nas mais diversas culturas e religiões e descobriu que a mente humana tem, por assim dizer, “camadas antigas”. Os mitos, as lendas, os contos são pontos de encontro entre as mais diversas culturas no tempo e no espaço. Há em nossa psique certas potencialidades para o desenvolvimento de determinados comportamentos, de determinados papéis, que podem se realizar ou não, que podem ser ativados, dependendo das circunstâncias de nossas vidas. São os arquétipos. A título de compreensão, podemos fazer um paralelo com os genes. Assim como os genes determinam nossos caracteres, os arquétipos guiam nossa vida psíquica, dando a ela um direcionamento, que independe de nossa vontade consciente. Os arquétipos são, por assim dizer, os genes da nossa mente. Ao conceituar o que Jung denominou de inconsciente coletivo, o lugar em que historicamente as mais diversas civilizações humanas tangenciam, Jung derrubou o “acaso” na psique humana. Por que as mais diferentes culturas no tempo e no espaço, culturas que não se conheceram, abordam os mesmos temas em seus mitos, em seus contos, em suas lendas? Porque há um substrato psíquico, o inconsciente coletivo, subjacente a todas elas. É o que nos torna humanos em nossos gestos, comportamentos, ações, desejos.

O inconsciente pode até estar démodé, pode até ser enterrado nas areias do tempo pelos modernos cientistas da mente humana. Mas sempre emergirá à noite, revelando-se através dos nossos sonhos e suas mensagens. Pois a ciência pode até tentar dominar os sonhos, explicando como acontecem neurologicamente. Jamais dominará, porém, seus conteúdos e o impacto que muitas vezes causam em nossas mentes e vidas, suscitando uma profunda reflexão e um questionamento sobre nós mesmos e nossas vidas.

BIBLIOGRAFIA

Jung, Carl G. – Memórias, Sonhos e Reflexões. Nova Fronteira, 1988.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).