Vivemos tempos difíceis. Tempos em que o sentido da vida ficou perdido em qualquer esquina. Tempos de um vazio profundo na alma. Tempos de desconexão com os elevados propósitos de nossa existência. A humanidade, imersa no materialismo e inebriada pelos efêmeros prazeres que este mundo ilusório proporciona, perdeu-se e começa a mostrar sinais de desespero por encontrar-se e recuperar o verdadeiro sentido da existência. As pessoas estão se sentindo deprimidas, sozinhas, vazias. Algumas, defendendo-se desesperadamente destes sentimentos, engatam uma experiência após a outra, preenchendo suas vidas de tal maneira a não entrar em contato com a profundidade da vida. E chamam a esta busca tresloucada e frenética pelo prazer de felicidade.

Ora, o que é a felicidade? A felicidade não está fora de nós, muito menos em um outro alguém. A felicidade está em um estado de espírito de paz, serenidade, plenitude e autenticidade em relação aos nossos próprios – e únicos – propósitos. Não é caminhar com a multidão sem questionar para onde ela se direciona. É caminhar de acordo com os valores e objetivos relevantes para nós mesmos. Muitas vezes, é caminhar na contramão da multidão.

Precisamos nos reencontrar. Quando começamos a vida, ainda crianças, temos todos os sonhos do mundo. Olhamos para o mundo de maneira otimista, não preconceituosa e, principalmente, acreditamos em nós mesmos. Permitimo-nos brincar e, ao brincar, entre erros e acertos, vamos construindo nossas experiências, despreocupados com os valores insanos, e muitas vezes errôneos, do mundo dos adultos. Precisamos nos reconectar com nossa criança interior, com a alegria de viver, a despeito dos problemas, religarmo-nos com aquilo que nos preenche de verdade, que nos faz genuinamente felizes.

O mundo cartesiano e cientificista foi-se afastando dos valores da alma. A pretexto dos grandes erros religiosos do passado, ao longo dos séculos a religião foi sendo rechaçada como misticismo não só inútil, como perigoso. Porém, hoje, o homem moderno, sobretudo o ocidental, tem sede de religiosidade. O materialismo não trouxe todas as respostas. Conforme o homem envelhece, esta necessidade de compreender o sentido da vida recrudesce. O brilhante psiquiatra suíço Carl Gustav Jung dizia que o sentimento de religiosidade é arquetípico, ou seja, reside no homem. Entenda-se por isso este questionamento em relação ao sentido de nossas vidas.

Os tempos difíceis apenas nos conclamam a mudanças. A humanidade evolui por movimentos pendulares. Chegando a um extremo, sem encontrar ali os resultados que tanto buscava, começa a deslocar o pêndulo para o lado oposto, colocado na sombra, para aquilo que negou veementemente, sem reflexão. Conhecer os dois lados nos auxilia a encontrar um ponto de equilíbrio. Vivemos agora este grande sentimento de vazio. Entramos no frenesi da busca pela eterna juventude do corpo na tentativa equivocada de driblarmos a morte. A morte existe. Ela chegará para todos. Somos seres da natureza e, portanto, como as plantas e os animais nascemos e morremos, ou seja: nos transformamos. Este sentimento de vazio chama à ação, chama a um olhar para dentro de nós mesmos: o que queremos de nossas vidas? O momento é chegado de nos reconectarmos com nosso verdadeiro eu. Não o que a sociedade dita, mas aquilo que de fato nos preenche, nos faz sentido. Portanto, olhe para dentro de você, despoje-se dos valores que não são os seus, sempre há tempo de recalcular as rotas e mudar de direção.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).