Na época em que vivemos, tem havido grandes mudanças na forma como as pessoas se relacionam: sem estabelecer laços, sem aprofundamento, sem o conhecimento da essência do outro e, consequentemente, sem respeito por esta essência, numa busca frenética – totalmente destituída de sentido – pelo prazer. Assim, qualquer sinal de que este prazer efêmero está caducando é motivo mais que suficiente para novas e intermináveis buscas. A Internet colabora muitíssimo para o que Zygmunt Bauman denomina de “relações líquidas”. O sociólogo esmiúça inteligentemente:

“E assim os leitores aprendem com a experiência de outros leitores, reciclada pelos especialistas, que é possível buscar ‘relacionamentos de bolso’, do tipo que se ‘pode dispor quando necessário’ e depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. Tal como no caso desse remédio, é preciso diluir as relações para que se possa consumi-las. Ou que os CSSs – casais semisseparados – merecem louvor como ‘revolucionários do relacionamento que romperam a bolha sufocante dos casais’. Ou ainda que as relações, da mesma forma que os automóveis, devem passar por revisões regulares para termos certeza de que continuarão funcionando bem. No todo, o que aprendem é que o compromisso, e em particular o compromisso a longo prazo, é a maior armadilha a ser evitada no esforço por ‘relacionar-se’. Um especialista informa aos leitores: ‘Ao se comprometerem, ainda que sem entusiasmo, lembrem-se de que possivelmente estarão fechando a porta a outras possibilidades românticas talvez mais satisfatórias e completas.’ Outro mostra-se ainda mais insensível: ‘A longo prazo, as promessas de compromisso são irrelevantes… Como outros investimentos, elas alternam períodos de alta e baixa.’ E assim, se você deseja ‘relacionar-se’, mantenha distância; se quer usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas sempre abertas.” (pp 10-11)

Bauman nos alerta para um dos grandes problemas da época em que vivemos, uma época em que formar vínculos está em decadência.

As opiniões se dividem. Por um lado, parece haver aceitação e conformação a novos modelos, por outro, frustração e discordância.

Gostaria também de emitir minha opinião. Relacionar-se significa estabelecer laços, conexão, ligação com algo ou alguém. Tudo do que muitas pessoas parecem fugir hoje em dia. Percebo uma grande contradição, pois as pessoas se queixam de solidão, de terem dificuldade em encontrar um parceiro, mas, ao mesmo tempo, querem sua liberdade, colocam seus desejos em primeiro lugar, querem continuar desfrutando de seus supostos prazeres egocêntricos, querem seguir suas próprias regras.

Esta é uma fórmula que já prova ter incorreções desde o princípio e que, portanto, não oferece uma solução eficaz para o dilema “ter ou não ter alguém, eis a questão”.

Toda liberdade é altamente relativa. Sua liberdade está condicionada por sua família, sua cultura, sua sociedade e suas leis, dentre muitas outras categorias (grupos sociais, religião, etc.). O que tem impedido as pessoas de se relacionarem é um forte sentimento de individualismo e falsa liberdade, reforçado pela mídia. Por outro lado, há também um medo absurdo em vincular-se. Enfim, as pessoas se comportam como verdadeiras crianças moldadas e instigadas por esta sociedade autômata, esvaziada de valores, materialista e consumista a irem em busca daquilo que lhes dá prazer em primeiro lugar. Há uma mensagem subliminar impelindo as pessoas a serem “livres” para buscar e expressar seus diversos prazeres, muitos deles atrelados a objetos de consumo: carro, casa, roupas, bebidas, restaurantes, viagens, etc. O indivíduo deve realizar-se em sua individualidade, nem que seja usando os outros para isso.

Ora, o apelo midiático, insidioso, pois liga a liberdade de expressão ao consumo e ao individualismo, torna qualquer relacionamento frágil ou fadado ao fracasso. “Eu te amo”, mas não sei ceder. “Eu te amo”, mas meu desejo deve prevalecer, pois é mais importante que o seu. “Eu te amo”, mas há tantos outros objetos de consumo (inclusive pessoas) que podem ser mais interessantes que você. “Eu te amo”, mas não o aceito como é. “Eu te amo”, mas não quero te ver, pois há coisas mais interessantes para fazer e você não “cabe” nelas. “Eu te amo”, mas não tenho tempo para você, pois o tempo que desse a você tomaria muito do meu próprio tempo precioso.

As pessoas estão perdidas, essa é a verdade. Muitas, perdidas em sua cegueira, muitas, perdidas em seu medo. Nem reconhecem mais o que é verdadeiramente importante a elas, de tão influenciadas que estão pelos valores de uma sociedade destituída de um olhar coletivo e solidário. Valores estes que, como mencionei, em última instância, tornam as próprias pessoas e o sexo em objetos de consumo. Quanto mais opções eu tenho, mais feliz eu sou. Não sabem apreciar o grande prazer que é estar ao lado de alguém, conhecer suas ideias, sua alma, sua essência. Não sabem apreciar o dividir, o compartilhar, o construir juntos. Estão afundando em sua solidão, agarrando-se a opções que não têm fim, que nunca colocam um ponto final em sua busca e que criam um sentimento de falsa felicidade.

A subjetividade está perdendo terreno para a objetividade. O “ter” é maior que o “ser”. Os valores materiais sufocaram os espirituais. As pessoas seguem clichês, seguem a moda, sem questionamentos. Uma cidade como São Paulo nos coloca em contato com milhares de pessoas diariamente, sem que ao menos olhemos para os olhos delas. Mal levantamos e já direcionamos nosso dia para o caos do individualismo. Desconsideramos o outro e seus desejos, pois nossa vontade deve prevalecer, nosso espaço é sagrado.

Neste panorama sombrio, vitoriosos são aqueles que mantêm um relacionamento e alimentam seus vínculos sem desistirem precocemente, certos de que as liberdades são relativas e de que o maior prazer de um relacionamento é o estar junto com alguém, o crescer e se desenvolver com os desafios de uma companhia. Crescemos ao incluir o outro. Só um outro para nos revelar nossas sombras e nos colocar desafios de crescimento. Ninguém se torna melhor na solidão. O outro funciona como um espelho necessário ao autoconhecimento.

Acredito, também, que, com a perda do sentimento de religiosidade, foi-se também a construção de vínculos duráveis. A palavra “religião” vem do latim “re-ligare” que significa “ligar-se de novo”. Se formos capazes de um reencontro com nossa religiosidade (e, por religiosidade, não quero dizer necessariamente “ter uma religião”, mas sim, ter uma crença que nos traga um eixo), acredito que seremos, finalmente, capazes de nos libertar da falsa liberdade que a escravidão dos tempos líquidos nos impõe. Só então poderemos, verdadeiramente, recuperar o tempo perdido em nosso narcisismo inútil e investir na grande riqueza que é ter um relacionamento.

Se você desconhece Bauman, precisa ler “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”.

BIBLIOGRAFIA

Bauman, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, 2004.

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).