Rotina (in)decente

Dois fardos de 12 e você está sem nenhuma cerveja
bêbado, mas não o suficiente
queima o nariz acendendo uma mísera ponta na boca do fogão,
porque não conseguiu riscar a merda do fósforo,
Chapado
encara a folha e espera,
espera por muito tempo
mas desiste e tenta dormir…

E logo, como uma estrela cadente, a queda do meteorito,
ou aquele cara que se jogou do décimo andar,
desiste de dormir.
Porque a cortina tem furos e os ratos conversam em algum canto da casa,
então se veste e sai…

O carro demora a pegar, mas isso não te estressa,
nada te estressa, porque há tempos, as coisas são como são
então acerta a primeira e a segunda
e esquece de como fazer as outras
o carro grita e um toco de cigarro surge aceso,
graças a deus…

Não há trânsito e um mendigo muito magro e alto espera no sinal
ele pede uns trocados,
mas você mente pra ele:

– Tô quebrado.

ele abaixa a cabeça e você acelera e esquece de quase tudo…

No bar, muitos jovens bebem cervejas de casco azul
e as guriazinhas sorriem e você se imagina esbofeteando-as com a pica,
sorri de volta para todo mundo, como se isso o fizesse uma pessoa melhor,
e entra no bar…

O garçom, puro osso, cor de gelo, quase morto, pergunta:

– O que manda chefe?
– Uísque.
– Gelo, água, coca?
– Uma pedra de gelo.

Ele serve com 3 pedras de gelo e anota num bloquinho, e você continua pedindo…

O uísque, com o tempo,
começa a embrulhar o estômago
e você vai no banheiro
despeja tudo na privada,
e percebe que não foi o primeiro
e vomita mais uma vez…

Na pia, um rapaz de cavanhaque falhado, vestindo uma polo listrada, no máximo 20 anos,
aspira uma carreira fina na tela do celular,
ele chacoalha a cabeça de um lado pro outro,
te olha com um sorriso bizarro no rosto e diz:

– Puta que pariu! Boa pra caralho, olha, chega até brilhar!
– Pode crer.
– Quer dar um teco?
– Tô quebrado.
– Nem se estressa!

Ele te estende o celular com uma carreira mais fina que a dele,
realmente brilha…

Você aspira naquela nota de dois, e está pronto pra trocar o uísque pelo gin com tônica…

Pede uma, e depois outra, e continua pedindo, até a última moeda…

Você paga e sai,
e os adolescentes continuam bebendo suas cervejas de casco azul
alguém finge te conhecer e te abraça e você sorri sem mostrar os dentes, aceita a cerveja
e bebe, aquela merda de casco azul, doce demais,
para servir…

Então todo mundo ri e tenta formar uma frase sem esquecer a próxima palavra
e todos falham e você dá uns pegas naquele baseado
e aquela merda é realmente boa…

Você acha o cartão e pensa: aluguel, comida, água, luz e a vaga na garagem,
mas, foda-se
mais uma rodada de cerveja doce para todos os novos conhecidos, menos pra você,
que pede uma heineken
isso o faz ser reconhecido
e de alguma maneira, admirado por bucetinhas, que nunca foram chupadas
e você aceita isso e abraça-se a elas
e se sente melhor do que qualquer dia será…

A bebedeira continua, o bar fecha, e alguém distribui uma vodca de garrafa plástica
logo ninguém mais aguenta o álcool, e em bando começam a sumir na noite
você fica com a garrafa e com uma das que ficaram sem carona,
então, convida elas, todas elas, para sua casa e elas se negam a ir,
mas a que está com você aceita vir,
e você está de novo a frente do seu carro que demora pra pegar,
você mente e diz que nunca aconteceu, se justifica como se isso fizesse alguma diferença,
reclama e blasfema e quando finalmente o carro pega,
bate no painel, e as luzes acendem
e você dirige com a mão numa de suas coxas
e pensa nas inúmera maneiras de fode-la ao chegar em casa…

Quando chega, a oferece, vinho,
mesmo sabendo que, não há nada
ela aceita o vinho,
você procura e não acha,
enrola,
e finge estar bêbado demais para saber qualquer coisa,
toma um longo gole da vodca de plástico e a oferece,
ela recusa,
mas tudo se resolve, porque ela bebeu demais
ela acende um cigarro,
você a beija, e traga a fumaça do cigarro dentro de sua boca,
os lençóis logo se desprendem das bordas da cama
ela não chupa, de maneira alguma,
isso é ruim,
mas não importa,
você chupa, e o gosto de sua boceta é uma espécie de amor,
você gosta de sentir os sutis tremores do seu corpo,
do suar,
e do soar de sua respiração aflita,
naturalmente, os corpos se movimentam ferozes, disputam o controle, até o fim,
você ganha, mas a que custo?
Coloca-a de quatro, da ritmo a foda, ela geme alto, beirando a um grito,
tapa-lhe a boca e continua metendo,
ela morde seus dedos, e antes de amolecer-se, solta um suave suspiro abafado
você cai por cima, ainda dentro dela,
ela respira, te olha, sorri,
se beijam, ela morde-lhe o lábio inferior…

Desce beijando-a da nuca ao cu, trabalha com a língua,
e quando tenta meter, ela grita e te empurra…

Nem a metade da cabeça entrou, ela deve ter 18 ou 20 anos,
não poderia ser muito diferente, anal no primeiro “encontro” é tão raro quanto amor a primeira vista, geralmente, só acontece uma vez na vida…

Natural, como um reflexo, você cai pro lado,
fecha os olhos, e dorme, sem gozar…

Pela manhã, resta a ressaca,
a ressaca e aquelas pernas estendidas na cama,
ela demora para acordar, e quando acorda, já está dentro dela
é estranho e satisfatório ao mesmo tempo, o som sonolento daquele gemido,
você continua até gozar,
e goza fora, porque a vida ainda é longa,
e arrependimentos, cortam mais fundo que qualquer faca…

Você passa e bebe o café, toma uma neosaudina e volta pra cama…

Ela dorme, e você pensa, deitado e bruços, ‘mais algumas horas de sono e quando acordar, uma cerveja’

Um dia de sol, como a maioria dos outros, seus olhos ardem, não se falam muito, sequer se se tocam, o arrependimento chegou mais cedo para ela,
a deixa na frente de casa, ela o agradece, com um aceno, já longe do carro
ela deve morar com os pais, você pensa, sem pensar…
Dirige pela cidade, não consegue ver beleza ou diferença em nada,
entra no mercado, compra cerveja, um maço de cigarro, ovos, carne moída, pão e queijo…

Em casa, faz três sanduíches, come dois, guarda um,
abre uma cerveja, acende um cigarro, escreve um poema, ensaia um conto, e escreve mais um poema,
abre mais uma cerveja, acende mais um cigarro
e quando a inspiração se cansa,
deita no sofá e dorme o resto do dia…

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Sobre o autor

Vinícius Prestes

Vinícius Prestes

Escritor e boêmio, 18 anos, apreciador de música, da clássica ao samba, assíduo leitor de escritores beatniks, aficionado por filmes de máfia, no momento escrevo pra não morrer...