SHOPPING

Um poema sobre diversas percepções e epifanias  que se pode ter, caminhando bêbado pelo Shopping em busca que qualquer coisa…

 

como de praxe (palavra estúpida)
caminho com uma cerveja na mão
os homens se vestem como os manequins
e alguns manequins são laranjas
e não possuem cabeça
(como os homens)
que caminham por aqui
As mulheres são sempre
o ar de qualquer lugar
mas apesar da beleza
todas elas, parecem ter perdido
a alma

Eu nunca me visto bem o suficiente
e os olhares são frígidos
enquanto os beiços e os narizes se contraem
a estranheza toma por segundos os pensamentos
que julgam como se só
houvesse isso
a se fazer

raramente me sinto bem em algum lugar
mas depois que um homem de cera
ofereceu-me
vinho e champanhe
de graça
pensei que poderia
superar tudo aquilo
enlouquecendo
tirando as roupas e esfriando as bolas
com um vinho chileno
e uma loira de 43 anos

mas depois de 5 taças um segurança pediu para que parasse
e comprasse uma garrafa ou: ”desse o fora” dali
porque segundo ele eu era só um bêbado aproveitador
e as pessoas não estavam se sentindo confortáveis
com a minha presença
ele tinha razão

mas como alguém consegue se sentir confortável
sem estar trancado num quarto sozinho e coberto
bebendo ou fumando ou dormindo, sem se dar o luxo
de pensar em qualquer merda?

então eu dei o fora
e comprei mais algumas cervejas
porque enquanto os olhos e os narizes e os lábios
julgam
eu bebo
e penso no que vou escrever quando chegar em casa
claro que, julgo também
mas raramente me importo

OLHEM!
Mas se não puderem, imaginem.

Uma garotinha loira com bochechas vermelhas
e olhos verdes e vestido branco
cruzou a minha frente, montada em um macaco motorizado
que parecia um cachorro ou talvez o próprio diabo
e ela parecia estar muito feliz
eu sorrio e vejo os seus pais
feitos de gesso
boas refeições e bons vinhos
e fodas medíocres no meio da tarde
e traições provavelmente
e festas no barco e casas de swing
e fins de semanas na beira da piscina
bebendo cerveja alemã
mas nunca mais do que 3 por cabeça
e aqueles beijos, secos como merda ao sol

Um casal maravilhoso!

Bem… minha sacolinha de plástico rasgada pelas tampas da cerveja
e meus pensamentos
e meus passos curtos
e as pessoas que a princípio deveriam estar vivas a minha volta
é tudo o que eu tenho?

talvez eu devesse sorrir para a vida, como diria algum hippie imbecil
ou ver o filme dos bruxos viados no cinema
mas também poderia comprar um livro e uma fritadeira elétrica
e uma camisa de lã com um jacaré estampado
que como diz o anuncio, APENAS 300 reais!

Foda-se

o que eu realmente queria era
montar naquele macaco motorizado
e sair dali, fazendo malabarismo com garrafas abertas
sem deixar cair um único pingo no chão
então todos iriam sorrir e me aplaudir
e eu tocaria la bamba e todos dançariam até a morte
e eu ganharia um boquete no estacionamento
escoltado por dois seguranças
enquanto em apenas um minuto
eu cuspiria em uma folha
100 poemas imortais sobre o amor
que encharcariam milhões de calcinhas

então eu seria feliz e teria um dente de ouro
e lutaria boxe com o Mike Tyson durante a primavera
enquanto nossos tigres beberiam heineken
no cair das folhas, de uma árvore artificial
e tudo mais, se faria sol e mar e real
felicidade

Está vendo como eu ainda consigo?
Eu pergunto a você e digo para eu mesmo.
Nenhum de nós responde…

Mas tudo isso, parece ser o suficiente

Ah… eu sai do shopping e demorei uma hora para achar o carro
no estacionamento…

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Sobre o autor

Vinícius Prestes

Vinícius Prestes

Escritor e boêmio, 18 anos, apreciador de música, da clássica ao samba, assíduo leitor de escritores beatniks, aficionado por filmes de máfia, no momento escrevo pra não morrer...