Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa

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Sobre o autor

Lais Nascimento

Lais Nascimento

Mineira de Guaxupé, 26 anos, biomédica.
Amo a área da saúde mas também tenho grande interesse em psicologia e comportamento humano.