Um longo dia…

Tom acordou e não se vestiu, só de cueca e camiseta foi até a geladeira e abriu uma cerveja.

O gato o seguiu até a cozinha, e bebericou o leite. Lado a lado, Tom resolveu puxar assunto, sem pensar ele disse:

”É cara, vai ser um longo dia…”

O gato não respondeu.

Tom cantarolava Creedence pela casa e bebia sua cerveja.

Era um homem alto, queixo quadrado, cabelos bem cortados, barba feita, muito tranquilo, nunca tivera trabalhado um dia sequer em toda vida.

Alguém bate na porta…

Com um sorriso no rosto, Tom abre sem pensar…

Um soco preenche o meio da bela face de Tom, que cai sentado sobre si, sem entender…

”Desgraçado! Você fodeu minha mulher!”

”Porra, eu não sabia cara, desculpa!

” Não fode, filho da puta!”

O bico da bota do homem careca de barba grisalha, acerta Tom acima do olho esquerdo…

O agressor caminha pelo corredor do prédio a passos aflitos, aperta 10 vezes o botão do elevador e, sai dali, provavelmente, para sempre…

Tom se levanta, sente-se orgulhoso, pois aquele homem poderia ser o marido de no mínimo doze mulheres, ele tranca a porta e começa a rir num tom ameno, abre mais uma cerveja e a reveza entre a boca e o olho…

Depois de escrever seis páginas do seu novo romance sobre um homem que se envolve sexualmente com dez mulheres ao mesmo tempo, Tom volta a escutar a porta…

Antes de abrir, ele olha pelo olho mágico e vê uma mulher, ele nunca a viu, ela usa um vestido dourado colado ao corpo, ele estranha, mas abre a porta.

”Oi, você é o Tom?”

”Oi, é sou eu, por que?”

Os tapas não incomodavam tanto, mas as unhas tiravam pedaços da já nem tão bela, face de Tom…

”Mas que merda é essa?”

”Você enfiou essa sua coisa nojenta na Cindy, ela é minha mulher entendeu? Minha mulher!”

E o joelho da agressora morreu no meio das pernas de Tom…

Após minutos de dor e raiva, ele consegue se levantar, sua camiseta está lavada de sangue, ele vai para o banheiro, liga o chuveiro e sente seu rosto arder, mas, Tom ainda consegue rir…

Afinal não é todo dia que coisas assim, acontecem, ele se lava e pensa sobre o porque daquele vestido, mas logo desiste…

A noite, Tom resolve sair, faz a barba, veste seu terno risca de giz, remenda o rosto com esparadrapos, se admira por um longo tempo a frente do espelho, se enche de perfume, deixa a comida para o gato e se dirige para a porta, mas antes, o telefone toca…

Ele nem pensou em não atender…

”Alô…”

”Tom é a Thayla…”

”Ah, oi Thaylinha como você tá?”

”Escuta, meu marido descobriu a gente, ele tá indo ai.”

”Porra, como assim? Porque você deu meu endereço?”

”Eu não dei, ele é ex policial, tem muitos contatos ainda e…”

”Tá, foda-se, eu vou sair daqui!”

”NÃO! Não sai e não abre a porta pra ninguém!”

”Puta que pariu, PUTA QUE PARIU! Ta bom, obrigado ou não!”

Tom bateu o telefone com raiva, chaveou a porta, abriu mais uma cerveja, sentou no sofá e chamou o gato, estava sendo um longo dia mesmo, ele pensou…

O gato subiu no colo de Tom, ele bebia longos goles da cerveja e acariciava o gato, não sabia o que fazer, então resolveu apenas, esperar…

O gato pareceu incomodado com algo na roupa de Tom, arranhava o terno na altura do peito, Tom empurrava o para baixo, mas ele insistia e no ápice de sua insistência rasgou o terno, na mesma hora Tom jogou o gato para longe…

”Gato de merd…”

Tom, de pé, olhou para baixo, para averiguar o estrago…

Em cima do rasgo feito pelo gato, brilhava um ponto de luz vermelha, ele não teve mais tempo de pensar em nada…

O tiro o jogou sentado no sofá…

O sangue pintava suas vestes, a garrafa de cerveja rolou pelo chão, o gato fugiu pela janela…

Alguém batia na porta novamente, mas dessa vez, ninguém abriu…

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Sobre o autor

Vinícius Prestes

Vinícius Prestes

Escritor e boêmio, 18 anos, apreciador de música, da clássica ao samba, assíduo leitor de escritores beatniks, aficionado por filmes de máfia, no momento escrevo pra não morrer...