Você é luz ou sombra? Almejamos muito ser “luz”, porém, definitivamente, somos também “sombra”. O nosso lado “luz” é facilmente identificável, sabemos perfeitamente descrever nossas qualidades e invariavelmente nos orgulhamos delas. Mas… e o nosso lado sombra? Conseguimos identificá-lo assim tão facilmente e, caso o identifiquemos, conseguimos aceitá-lo sem maiores dificuldades?

Há dentro de nós um lado oculto, um lado que desconhecemos, que rechaçamos ou que escondemos debaixo do tapete sem percebermos com clareza: a nossa sombra. Jung deu o nome de sombra àqueles nossos conteúdos reprimidos do inconsciente pessoal freudiano, mas também a conteúdos desconhecidos do inconsciente coletivo. Por mais que não saibamos da nossa sombra, ela não deixa de estar atuante e pautando muitas ações danosas nossas. O fato é que se não a integrarmos à consciência, não só ela nos domina, mas principalmente sua imensa força criativa fica estagnada. Não é tão difícil encontrá-la ou percebê-la, mas há que termos olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Edward C. Whitmont, em “A Busca do Símbolo”, definiu a sombra assim: “O termo sombra refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. Como tudo o que é inconsciente e projetado, encontramos a sombra na projeção – em nossa visão da ‘outra pessoa’ (…)”.

Em outras palavras, os outros são nossos maiores aliados em detectar e apontar nossos aspectos sombrios. Quando alguém nos diz algo a nosso respeito que nos incomoda, nos encoleriza, nos tira do eixo, aí está uma grande pista de nossos pontos sombrios. São aqueles que queremos acreditar serem diferentes, mas não são… Por exemplo, se alguém lhe diz “nossa, como você é preguiçoso!”, e você se irrita profundamente e contesta veementemente, suspeite que o outro percebeu em você um aspecto de sombra que você ignora ou finge que não vê. É muitíssimo provável que a preguiça seja um fator presente em sua vida e, se não encarar esta crítica de frente, toda esta energia mobilizadora estancada em falta de ação não fica disponível para que você tenha respostas criativas perante as exigências do mundo.

Trata-se de trazer estes aspectos indesejados à consciência. Só assim poderá enfrentá-los e transformá-los. Nossa tendência é nos acharmos seres maravilhosos, pura luz, mas, na verdade, somos luz e escuridão. O que está no escuro não pode embelezar nossa vida, nos trazer recursos, então, devemos trazê-lo à luz da nossa consciência. É aquele velho ditado… o primeiro passo para você enfrentar qualquer tipo de problema é admitir que você tem um problema! Do contrário, jamais procurará ajuda, muito menos encontrará a solução para o que o incomoda ou o que atravanca sua vida.

Uma outra forma de reconhecer a sombra é apontar o mal nos outros, acreditando-nos portadores de todo o bem.  Se fosse pedido a você descrever o tipo de personalidade que acha mais desprezível, mais odioso, mais intolerável, você estaria descrevendo a sua sombra. Pois a sombra é tão inaceitável ou insuportável que a projetamos fora de nós, nos outros.

Enfrentar nossa sombra é enfrentar a nós mesmos, a maior de todas as batalhas da vida! Contudo, a vitória nos transforma para sempre, abre novos canais de fluxo vital. Nas palavras de Whitmont, novamente: “É preciso ser forte para não recuar ou não ser esmagado diante da visão da própria sombra e é preciso ser corajoso para aceitar a responsabilidade pelo ‘eu’ inferior (…). Apenas quando reconhecemos aquela parte de nós mesmos que ainda não vimos ou preferimos não ver é que podemos seguir em frente, questionar as fontes em que ela se alimenta e as bases em que repousa (…). Só quando sofremos o choque de ver a nós mesmos como realmente somos, e não como desejamos ou esperançosamente presumimos ser, é que poderemos dar o primeiro passo em direção à realidade individual.”

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BIBLIOGRAFIA:

Jung, Carl G. – Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Obras Completas de C. G. Jung (volume IX/2). Petrópolis 1990.

Whitmont, Edward C. – A busca do símbolo. Cultrix 2002.  

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Sobre o autor

Iolanda Krusnauskas

Iolanda Krusnauskas

Psicóloga clínica (USP-SP) e psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae).